domingo, 2 de maio de 2010

Al-Quran

Por um brevíssimo instante, me vi nos olhos daquela que se chama como a esposa do Profeta. Naquele mesmíssimo instante, também ela esteve nos meus.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Poética





"Arranco uma unha
Mais uma e serrrão dois
Continuo corrrtando
E a dedo virrr depois"

Se fosse bom de poesia como é de tortura, o Dr. Eric von Schiertzenchild já teria recebido um prêmio Nobel.

Dr. Eric von Schiertzenchild


- No... no...
Disse o Dr. Eric von Schiertzenchild enquanto a mão dela já procurava, do lado esquerdo, o interruptor.
- A noite - prosseguiu com seu carregado sotaque alemão - ser dos rrratos e barrratas... nós no incomodarrrrr.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Pequeno Intervalo


Mantinha, ao beijar, os olhos bem abertos. Precisava manter na memória cada reação. Cada espasmo mais violento do prazer que aquele beijo provocava. E viu diversos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Historieta de horror





Abriu a porta e os seus olhos me viram imediatamente. Deus, como aquele olhar insano me fazia bem. Estranhamente, me dava a sensação que tudo ficaria bem. Cabeça baixa e os olhos me encarando por baixo do cabelo que pendia pra frente. Quando eu os vi, meus temores foram embora. Tudo ficaria bem.

-Onde ela tá?
-Foi embora.
-Pra onde?
-Não me disse. Eu fiz bolo, você quer?

Entrou em casa e foi ao quarto dela. Como havia dito, não estava. Voltou e bateu na mesa com uma força que eu não podia imaginar existir em seu corpo tão delgado.


-Quando é que ela volta?
-Eu não sou secretário dela. Não pedi pra marcar na agenda.

Outra batida na mesa. Eu nunca havia falado daquela forma com ele. Ele nunca me gritara antes. Gritaria agora.

-O que você fez com ela?

Aquela sensação de tranqüilidade tinha ido embora por completo. Passaram-se o quê? Um minuto? Um e meio? Não conseguia falar nada.

-Me fala o que você fez com ela. Me fala logo, porra.

Começo a chorar. É desespero o que sinto. Ela estava certa.

-Ela disse que você ia me deixar. Que iria embora com ela. Eu não quero que você vá embora. Não... não vá... eu amo você. Você... eu sei... as coisas vão melhorar, ela foi embora agora... somos só nós agora...
-Onde é que ela tá? Anda, fala.
-Eu a matei. Ela veio pra perto de mim. Disse que você não me amava e eu sabia que era mentira. Mas ela continuou, disse que você gostava dela, que vocês iriam embora. Me deixariam sozinho. E aquele risinho zombeteiro. Nunca mais ela vai mostrar aquele sorrisinho pra ninguém.

As palavras saíam uma após a outra de maneira apressada. Uma sucessão tão rápida quanto rápida foi a maneira como as coisas aconteceram. Ele botou a mão sobre os meus lábios pra que eu me calasse. Respirei.

-Mais devagar agora.
-Eu a segurei pelo cabelo e bati a cabeça na mesa. Ela caiu e eu fiquei em cima dela. Senti vontade de sexo. Arranquei a roupa enquanto ainda estava tonta e comecei a penetrá-la. Ela começou a se debater, não queria me deixar terminar. Botei as mãos em volta do pescoço dela. Disse que ela teria prazer como você nunca tinha dado. Apertava mais e ela diminuía a resistência. Eu diminuía a pressão sobre o pescoço e aumentava o ritmo do quadril contra o dela. Bati com a cabeça dela no chão umas duas ou três vezes. Quando acabei, deixei que o peso do meu corpo ficasse sobre o dela. Ela tinha uma lágrima no olho direito. Eu não queria. Mas não podia deixar você ir com ela. Como é que eu ficaria?

Chorava compulsivamente. Ele me segurou pelo cabelo e levantou minha cabeça. Me forçava a olhar-lhe nos olhos. Aproximou seus lábios aos meus e me deu o mais intenso beijo que senti até hoje.

-Eu não vou lhe deixar nunca. Eu amo você. Você é a coisa mais incrível que já me aconteceu na vida. Onde é que está o corpo? Precisamos levar pra algum lugar onde não o encontrem.

Levantou, mas eu o puxei para mim. Abracei-lhe forte, com urgência, como se agora fôssemos, definitivamente, um.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Para Juão

Dois comprimidos de rivotril 1mg. Comprado sem receita médica. Era, segundo me disseram, o suficiente pra que não doesse. E, num intervalo de tempo que me pareceu agora, aproximaram-se de mim. Via as agulhas enormes em suas mãos. Cada um trazia duas. Tentava descobrir quem eram, mas não conseguia distiguir as suas feições dentre as milhares de feições que já haviam passado na minha vida. Nem entre as centenas com as quais tive diálogos importantes. Não estavam nem entre as dezenas que já me causaram dor antes. Desconhecidos completos.

Falavam o tempo todo e eu não entendia uma palavra sequer de todo aquele matraqueado. A distância era de centímetros. Isso era tudo o que distanciava a minha boca daqueles rostos estranhos. Me analisavam. E voltavam a falar.

Levantaram o meu lábio superior. Um de cada lado, deixando à mostra os meus caninos. Não estou seguro se queria resistir. Mas não fiz nada para isso. Levantaram as agulhas em sincronia quase ensaiada e, ainda em sincronia, fizeram-nas perfurar. Na parte superior à gengiva, quase no encontro com a face interna do lábio. Entraram fundo. A dor era tão intensa que eu não tenho como descrevê-la ou compará-la a nenhuma outra que já houvesse sentido.

Repetiram o processo. Dessa vez com os dentes inferiores. As agulhas rasgavam minha carne e atingiam pontos muito profundos da minha face. Elas devem ter estilhaçado os nervos que estão presos à base dos dentes. Volto a dizer, e insistirei nisso, a dor deve ter sido a mais intensa que eu jamais senti.

E eu estava calmo. Enquanto permaneceram junto a mim, não viram um sinal de dor que fosse. E não veriam. Fui largado ao chão e eles saíram. Não tinha coordenação pra tentar arrancar as agulhas. Fui largado e lá fiquei. Chorando. Voltaram e não demoraram muito a colocar-me sentado outra vez. Metais curvados, dessa vez. Enfiados pelas laterais e rasgando a carne do meu rosto até acharem o lado de fora. Não sei se haviam desistido da acupuntura e iriam partir para a pescaria, agora. E, vejam só, já conseguia até fazer piada com a dor. Esse é um momento precioso. Não é sempre que se consegue rir da própria desgraça. Ainda mais quando ela está, sem nenhuma razão aparente, lhe dilacerando a face e acabando com as suas chances de não ser visto como uma aberração depois.

Se existir depois. Levantaram-me pelos anzóis [lembram que eu falei em pescaria? A imagem é exatamente essa: o peixe morde a isca. O pescador liga o motor do seu barco e se distancia do local onde estavam, para cansar a presa e, assim, tornar a pesca mais fácil] e me fizeram andar pela sala. Abriram uma porta e me fizeram seguir por ela. Uma série de corredores estreitos e cada vez mais baixos. Já era quase impossível prosseguir e os corredores acabaram como começaram. Em uma sala ampla. Nela, uma cadeira e uma mulher sem roupa.

A mulher andou em minha direção e segurou os anzóis forçando-me a seguí-la. Apontou as laterais da sala para os homens que me carregavam antes e me puxou com força antes que eu pudesse ver o que havia lá. Sentou-se na cadeira e me colocou de joelhos à sua frente. Apoiou a perna sobre o meu ombro e um dos homens me entregou um vidro de esmalte. Posso assegurar que não fazia mais sentido para mim que para você. Ainda assim, fiz o que me pareceu ser o que devia ser feito.

Abri o vidro e retirei o pincel vermelho de tinta. Passei a tingir os poucos pelos que estavam à minha frente. Ela se contorcia. E mais quanto mais sujeira eu fazia. Passaram a me estapear e a golpear as minhas costas com madeiras e pregos. A dor voltava com mais intensadade e ela sentia mais prazer com minha dor. Joguei o esmalte sobre ela e passei a beijá-la, misturando meu sangue com o esmalte e o seu gozo.

Êxtase quase religioso me fez cair, novamente. Chorando, agradeci aos meus algozes. Me fizeram recordar a dor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Uma (muito) curta narrativa

Já havia caminhado até a metade da ponte. Tinha uns 60 e tantos anos e não aguentava mais viver. Tinha se tornado desinteressante. Parou. De lá, mirava o Brasil à sua direita. A casa que o desprezava. Não queria mais pensar. Se jogou.

Teria ficado muito satisfeito se a curta narrativa de sua morte terminasse aí.
Não terminou. Um navio que pesquisava sei-lá-o-quê no rio passou em baixo da ponte exatamente quando deveria atingir a água. Estava olhando o rio, desequilibrou, algo assim, foi o que disse. Mas não conseguiu conviver com o fracasso olhando para si todo o tempo. Eliminou as chances de dar errado. Pegou um revólver, trouxe até a têmpora esquerda (apesar de destro) e atirou.

Na próxima vez, lhe darei, palavra de escritor, a morte que queria.